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Psicanálise e Cinema: uma leitura a partir de Pasolini

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Foi no final do século XIX que Freud escreveu, em coautoria com Breuer, Estudos sobre a Histeria e pouco tempo depois publicou A Interpretação dos Sonhos. Surgia assim a mais revolucionária das ciências do século XX, inaugurando-se o estudo do inconsciente e mudando para sempre o paradigma racionalista. Pela mesma altura, Auguste e Louis Lumière fazem, em Paris, a primeira apresentação pública do cinematógrafo. Foi tão grande o impacto de L’arrivée d’un train en gare de La Ciotat que levou Gorki a escrever Last Night I Was in the Kingdom of Shadows.

Deste modo, ambos, cinema e psicanálise, partilham um fundo comum, ainda que muitas mudanças tenham ocorrido. No cinema, o primeiro e enorme salto ocorreu aquando da passagem do mudo para o sonoro. Nos nossos dias, o fim da película e a digitalização dos processos democratizou-o e tem-no tornado cada vez mais pré e pós-produzido.

Pasolini, no célebre texto O Cinema de Poesia, refere-se à tradição cinematográfica constituída como a de uma “língua de prosa” e questiona-se sobre a possibilidade de uma língua de poesia no cinema. Transforma esta questão na possibilidade da técnica do Discurso Indireto Livre cinematográfico — subjectiva indireta livre — que seria uma forma sensível e extremamente livre de usar a câmara, sendo que as suas incursões o levaram a dizer, a dada altura, que o cinema dito de poesia seria aquele onde a câmara se faria sentir, ao contrário do cinema de prosa. Como exemplo temos os filmes realizados pelos jovens cineastas franceses (Truffaut, Godard, entre outros), que desenvolveram a ideia de cinema de autor, fundando a Nouvelle Vague, movimento que levou a uma abertura ao imaginário e à valorização do estilo do realizador que expressava a sua visão do mundo (À bout de souffle, Jules et Jim, Les 400 coups…).

Quanto à psicanálise contemporânea, já não objetiva em exclusivo nem o levantamento das amnésias infantis, nem os desejos edípicos reprimidos ou as fantasias inconscientes ligadas à agressão. O analista deixa de ser o detentor de uma verdade absoluta, pressupondo antes que a interpretação implique uma mudança de vértice para que algo novo possa surgir no encontro analítico. Deste modo, não se espera que o analista funcione apenas como um espelho, adquirindo assim a sua presença, esse quê de real, a sua câmara/olhar, uma importância cada vez maior.

Atualmente, ambos, analista e analisando, são encarados como agentes de um processo que resulta desse encontro único e que ocorre num setting onde as cenas se vão desenlaçando e recriando. Cria-se um terceiro analítico (Ogden), que se insere na relação analítica, modificando-a. A psicanálise passa a ser entendida como uma espécie de construção de uma peça teatral, onde as co-narrações transformativas (Ferro)tomam o lugar das interpretações, tendo a criatividade um papel crucial.

Ao longo do tempo a psicanálise terá influenciado o cinema, e ter-se-ão unido, em felizes encontros, tal como o próprio cinema poderá ter permeado a psicanálise. Assim pergunto, inspirando-me em Pasolini: será possível uma linguagem de poesia na psicanálise?

Lembro-me de um analisando que me disse:

«Sabe, Cristina, aquilo que me diz até pode ter sentido mas eu presto atenção ao seu tom de voz… Às vezes sinto-a meiga, calma, outras vezes irritada… porque levanta um pouco a voz (…) Outro dia apercebi-me de que gostaria de ver o outro lado do mundo, gostaria de ver o sol nascer do outro lado… A Cristina é o meu outro Eu».

…Ou não será a própria psicanálise da ordem da poesia que inventa e possibilita novas narrativas?

Cristina Farias Ferreira — Psicanalista

Texto originalmente publicado no blog da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (2018), com o título «Psicanálise de poesia».

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