Quando pensamos em psicanálise, surgem-nos quase inevitavelmente algumas palavras: pai, mãe, sexualidade, complexo de Édipo. Freud expandiu o conceito de sexualidade infantil para incluir partes do corpo não tradicionalmente ligadas ao sexo. Mostrou-nos também que não somos inteiramente senhores da nossa própria casa: desejos, fantasias e conflitos inconscientes atravessam aquilo que pensamos, sentimos e fazemos, muitas vezes desviando-nos daquilo que conscientemente julgamos querer.
Mas Freud reconheceu já em seu «Projeto para uma Psicologia Científica» que a criança é extremamente vulnerável. O bebé nasce numa condição de extrema dependência e necessita de um outro que responda às suas necessidades. Outros psicanalistas viriam a aprofundar esta dimensão da experiência humana. Entre eles, Winnicott e Bion deram particular importância àquilo que acontece entre o bebé e quem dele cuida — não apenas à satisfação das suas necessidades, mas à possibilidade de as suas experiências, angústias e impulsos encontrarem alguém capaz de os receber e de os transformar emocionalmente.
Para Winnicott, no início da vida, antes mesmo de poder reconhecer a mãe como alguém separado de si, o bebé necessita de uma experiência suficientemente continuada de sustentação. É o que designa por holding- uma forma de sustentação física e psíquica que protege a continuidade de ser do bebé.
É neste nível muito precoce que Winnicott situa aquilo a que chamou elemento feminino puro, ligado à experiência de simplesmente ser. Antes de fazer, antes de procurar, antes mesmo de reconhecer plenamente o outro como diferente de si, é necessário poder ser. Mais tarde, com a progressiva diferenciação entre eu e não-eu, torna-se possível uma relação diferente com o mundo: agir sobre ele, fazer, desejar. Winnicott associa esta modalidade ao elemento masculino puro. Feminino e masculino não designam aqui mulher e homem, nem correspondem à identidade de género. São duas modalidades da experiência humana que, no desenvolvimento suficientemente bom, se articulam: o fazer pode então nascer do ser.
Há, porém, outro movimento fundamental. Para Winnicott, não basta que a criança se relacione com um objeto; é necessário que, progressivamente, possa reconhecê-lo como existindo fora do seu controlo omnipotente. É neste contexto que surge uma das ideias mais fortes — e talvez mais perturbadoras — do seu pensamento: para poder verdadeiramente usar um objeto, o sujeito tem de o destruir.
Não se trata, naturalmente, de uma destruição concreta. O objeto é destruído na fantasia, atacado pela agressividade e colocado à prova. Contudo, alguma coisa decisiva acontece quando o objeto sobrevive. Sobreviver significa não desaparecer nem retaliar diante da destrutividade que lhe é dirigida. A mãe continua ali. O mundo não acabou.
A “mãe suficientemente boa” de Winnicott não é uma mãe perfeita. É uma mãe que pode adaptar-se inicialmente às necessidades do bebé e, progressivamente, falhar de uma forma que ele possa suportar. É também uma mãe capaz de sobreviver à agressividade da criança sem retaliar.
Na situação analítica encontramos algo desta experiência. O paciente pode atacar, recusar, provocar, tentar destruir aquilo que o analista representa e o objetivo da sessão. E o analista, quando consegue continuar presente, manter a capacidade de pensar e não responder retaliatoriamente, oferece a possibilidade de uma experiência nova: o objeto pode ser atacado sem que a relação tenha necessariamente de desaparecer.
Bion, por outro caminho, aproxima-nos também desta função transformadora do outro. Com o conceito de rêverie materna, descreve a capacidade da mãe para receber experiências emocionais que o bebé ainda não consegue pensar, contê-las e transformá-las de modo que possam tornar-se progressivamente toleráveis e pensáveis. O que era angústia sem forma pode começar a ganhar sentido.
Podemos tornar tudo isto muito complicado. E, por vezes, a psicanálise torna complicado aquilo que um escritor consegue mostrar em poucas linhas.
Freud reconheceu várias vezes que os artistas chegavam, por outros caminhos, a regiões da experiência humana que a psicanálise procurava compreender. Chegou mesmo a dizer que diante do artista criador, a análise deve « depor suas armas», reconhecendo a profundidade dos seus insights. Talvez, então, possamos deixar por momentos a teoria e procurar na literatura uma imagem do que significa para uma criança encontrar um objeto que sobrevive.
Em A Cidade de Ulisses, de Teolinda Gersão, o narrador recorda um episódio da infância:
«O dia ficou de repente escuro, deixou de haver sol na janela. Dei um pontapé nos brinquedos e corri outra vez escada acima, com a Alberta a correr, aflita, atrás de mim. Empurrei a porta entreaberta e despejei um frasco de diluente em cima do trabalho de minha mãe. Se ela não gostava de mim, eu não gostava de suas pinturas. Nem gostava dela. Era melhor dizer-lhe isso logo ali, e foi exatamente o que fiz, sem precisar de palavras: atirei com o frasco, que se estilhaçou contra a parede, e desatei aos gritos como se o mundo acabasse. Porque, de certo modo, acabara. Para meu espanto e provavelmente para espanto ainda maior da empregada, a minha mãe abraçou-me e começou a chorar. – Pode ir, Alberta, disse finalmente. E deixou que eu me instalasse diante de uma folha de papel, nesse dia e em todos os outros (…)»
A Cidade de Ulisses, pp.81-82).
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