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11’09’’01, de Alejandro González Iñárritu: trauma, imagem e irrepresentável

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Passaram-se já mais de duas décadas sobre o ataque terrorista aos Estados Unidos, a 11 de setembro de 2001. Vi, pela primeira vez, numa aula da Escola Superior de Teatro e Cinema, um dos filmes integrados no projeto de Alain Brigand — 11’09’’01. Pela força do acontecimento e pela qualidade do filme, julgo que merece ser revisitado.

Brigand convidou 11 realizadores para, em 11 minutos, 9 segundos e 1 frame — numa alusão à data — apresentarem a sua visão sobre o ocorrido naquele dia fatídico em que nos foi apresentado o “deserto do real”, numa analogia a Matrix (Žižek, 2003). Uma realidade tão surreal que mais se assemelhava a uma cena de cinema mainstream.

Nesse dia, quatro aviões comerciais foram sequestrados por integrantes da Al-Qaeda: dois chocaram contra o World Trade Center, um contra o Pentágono e um quarto caiu na Pensilvânia. Quase 3 mil mortos. O mundo não voltou a ser o mesmo.

O filme escolhido para visualização na aula foi o do realizador mexicano Alejandro González Iñárritu. Ao vê-lo, lembro-me de ter ficado estupefacta — em choque mesmo — levando-me a procurar de imediato o DVD, que acabei por encomendar. Após a visualização integral do projeto, considerei o segmento de Iñárritu como, indiscutivelmente, o mais impactante e interessante do ponto de vista artístico.

Iñárritu não filma diretamente, utilizando antes imagens e sons captados e difundidos pelos media em todo o mundo. O filme inicia-se com a tela negra — que predomina num espaço que convida à introspeção — ouvindo-se vozes, murmúrios, cânticos, preces. A dada altura, surge um flash de uma imagem indistinta. Depois, vozes do interior de um avião. Notícias. Gritos. Uma chamada telefónica. Uma declaração de amor.

As imagens regressam — inicialmente em flashes, depois com maior duração — permitindo reconhecer pessoas que, em desespero, se lançam das torres do World Trade Center. O som cresce à medida que o avião se aproxima do impacto e, subitamente, é suspenso, dando lugar à imagem da explosão.

Iñárritu separa som e imagem, produzindo um efeito profundamente perturbador. Tudo foi intenso demais, violento demais, excedendo a capacidade de elaboração psíquica… Mas como reagir ao inimaginável?

O realizador não mostra os aviões a embater, apenas a explosão — depois de termos visto os corpos em queda. A ordem cronológica é subvertida, numa lógica que se aproxima do funcionamento do inconsciente: condensação, atemporalidade, substituição da realidade externa pela interna (Matte Blanco).

O filme termina com os cânticos iniciais e uma música suave. A tela clareia, num aparente movimento de catarse — um “festival de afetos”, como diria Barthes a propósito do cinema.

Termino com McCartney: “I am talking about freedom… I will fight for the right to live in freedom.”

Ou não será também essa a liberdade que a psicanálise almeja — a possibilidade de o sujeito ser livre no seu próprio pensar, livre nas suas escolhas, tendo sempre em conta a liberdade do outro?

Neste pressuposto, onde se inscrevem certos discursos políticos contemporâneos?

Cristina Farias Ferreira — Psicanalista

Texto originalmente publicado no blog da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (2018), aqui revisto.

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