Em Dor Fantasma, de Rafael Gallo (Prémio José Saramago, 2022), Rômulo Castelo, pianista exímio, vive obcecado pela perfeição. A peça intocável de Franz Liszt, Rondeau Fantastique, é a sua grande ambição — obra com que pretende deixar a sua marca de excelência no mundo.
Desde cedo, o pai, maestro severo, impôs-lhe uma rigorosa disciplina, apresentando-o ao metrónomo que deveria tornar-se o seu guia de vida: mesmo silenciado, Rômulo necessitaria carregar o ritmo dentro de si. Seriam essas pulsações internas que o afastariam dos impulsos mais baixos, organizando tudo à sua volta. A mãe, figura apagada, representava o trivial.
A rotina de Rômulo é implacável: às 6h40, tranca-se na sua sala de estudos, isolado até da esposa e do filho, Franz. É nesse espaço impenetrável — um verdadeiro refúgio psíquico — que busca a perfeição, até que o destino o atinge violentamente. Num dia chuvoso, Rômulo é atropelado. A sua mão direita é esmagada e amputada e, com ela, desaparece o seu sentido de existir.
O que resta a alguém cuja identidade está tão profundamente enraizada na música?
A dor fantasma invade, latejante e cruel, onde nada mais existe. O desespero domina-o.
Rômulo despreza a esposa, Marisa, cujas manifestações de amor, incapazes de lhe despertar gratidão, geram ressentimento. O filho, outrora investido de fantasias grandiosas, é também menosprezado. A sua anterior — e única — relação de igual para igual, com Lorena, desmorona perante a sua necessidade narcísica de primazia. À medida que a narrativa avança, as suas reações, progressivamente mais agressivas e destrutivas, revelam a deterioração de uma personalidade organizada de forma patológica.
A escrita de Rafael Gallo é fluida e poderosa, conduzindo o leitor por uma espiral de emoções intensas — desde momentos de rara beleza, como a cena em que Franz toca ao lado do pai, até à crueza das explosões de fúria de Rômulo.
Com uma história pungente e um desenlace impactante, o livro instiga reflexões que transcendem julgamentos superficiais, convidando a uma contemplação mais profunda das vulnerabilidades da condição humana.
Texto originalmente publicado no blog da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, agora revisto