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Carta Aberta aos Animais e aos que os Amam

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Neste tempo sombrio, em que a insensibilidade se alastra como névoa, convoco um livro que abre, ele mesmo, uma fresta de lucidez: Carta Aberta aos Animais e aos que os Amam, de Frédéric Lenoir, pensador francês.
Um livro que rasga os véus que protegem o olhar.
Que mostra o visível e aquilo que o medo ou o conforto nos levam a ignorar. Que fere e comove, porque expõe, sem desculpas, a brutalidade dos matadouros e das fábricas de produção intensiva, aludindo também a tradições que, ainda hoje, perpetuam a história sangrenta da humanidade.
Na abertura, Lenoir confronta-nos com as palavras de Isaac Singer:
«Para essas criaturas, todos os humanos são nazis; para os animais, a vida é um eterno Treblinka.»
Mesmo reconhecendo que a dor animal não se equipara à dor humana, o que se revela é intolerável. O abate impõe o ritmo de vinte bovinos por hora, mas muitos matadouros aceleram para quarenta, movidos por razões económicas. A pressa transforma a morte numa linha de montagem. Quem visita esses lugares, diz Lenoir, raramente voltará a desejar comer carne.
Há trabalhadores que enlouquecem. Degolam centenas de animais loucos de medo. Lenoir pergunta como foi possível negar aquilo que qualquer criança percebe: sensibilidade, alegria, sofrimento. O óbvio.
Hoje parece natural proteger os mais vulneráveis. Estender essa proteção aos animais representa também um avanço moral. Freud é evocado ao falar do amor sereno que recebia do seu cão, Jofi — livre da ambivalência e dos conflitos da civilização.
Lenoir propõe medidas concretas: selo de «carne ética»; abate nas quintas, evitando o transporte violento para os matadouros; proibição da degola sem atordoamento; proteção legal dos animais e restrição à experimentação.
Lenoir cita o Papa Francisco: “O coração é único, e a miséria que nos leva a maltratar um animal não tarda a manifestar-se na relação com outras pessoas.»
Neste mundo em que a dor se torna invisível e o sofrimento se converte em ruído de fundo, Carta Aberta aos Animais e aos que os Amam devolve-nos o olhar.
E, talvez, nos ensine novamente a sentir.

Texto originalmente publicado no blog da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, em 27 de maio de 2025

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